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8 março

ninguém pode imaginar o tamanho da saudade que senti

quando meus olhos cruzaram com os teus

naquela tarde quente

e eu de mangas compridas

 

ninguém é capaz de entender o quanto forte foi o abalo em mim

no meu corpo tão carente do teu

 

ninguém pode sequer supor o barulho dentro de mim

foi como uma avalanche

naquele exato momento que meus olhos esbarraram nos teus

no meio daquela ponte

que passa sobre aquele rio

sem vida e sem peixes

 

não, ninguém tem a noção do que foi para mim

quando meus olhos encontraram os teus

no meio daquela gente toda

daquelas mulheres que cantavam e dançavam

bem naquela ponte sobre o rio morto

 

não, ninguém tem ideia do que foi para mim

aqueles pequenos segundos em que meus olhos rasparam nos teus

 

olhos que não são mais verdes

são escuros como um vazio

e você tinha olhos verdes tão bonitos

tão bonitos como as águas dos rios cristalinos do cerrado

teus olhos não são mais verdes

não são negros ou castanhos

são escuros como um nada

 

e foi com esses olhos que os meus tropeçaram naquela tarde quente

mas ninguém vai entender o quanto ardeu em mim

em cada poro

em cada vértebra

ter meus olhos mirando os teus

às vezes nem eu percebo o tamanho da emboscada que foi para mim

ter visto teus olhos naquele dia

 

eu queria poder te dizer tanta coisa

mas não será possível

nunca mais

meu silêncio é a minha única garantia de sobrevivência

meu afastamento me resguarda e me protege

e o tempo das palavras passou

 

mas vou te dizer que ninguém

nem você poderia um dia entender

o quão difícil foi chegar ilesa e sã até aqui

até agora

 

naquela tarde quente

naquela ponte

eu te olhei e ali estavam teus olhos escuros

sem vida

sem peixes

e em mim também um vazio

naquele dia quando meus olhos colidiram com os teus

que não são mais verdes...


foto 'saudade' - Fernando Fiuza

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